José de Alencar, os Jesuítas e as Ilusões

José de Alencar, os Jesuítas e as Ilusões

Abrindo Espaço Para
o Crescimento do Espírito

Carlos Cardoso Aveline


José de Alencar e a página de abertura
da edição original de 1875 de “O Jesuíta

 

 

Plena de paradoxos e contradições como toda obra que nasce no território do verdadeiro gênio criador, a peça “O Jesuíta”, de José de Alencar, é uma reflexão sobre a luta que se trava na alma entre duas coisas sagradas.

De um lado, está o afeto humano nas relações mais íntimas; de outro lado, o amor a um ideal social e coletivo, ou espiritual.

Surgindo com audácia na contramão da onda de futilidades teatrais da sua época, a obra dramática de Alencar foi um absoluto fracasso de público e de crítica, e no entanto é uma obra-prima digna de Shakespeare.

“O Jesuíta” levanta questões difíceis, que são hoje mais atuais do que nunca.

Entre elas:

* Até que ponto alguns dos mais belos ideais sociais e espirituais têm inspirado há séculos ações concretas que os negam e os derrotam? São exemplo disso a prática do rancor como arma política; a mentira propagandística; a manobra política mais astuta do que sincera; e a substituição do pensamento independente pela mera repetição de dogmas baseados em crença cega, ou de slogans e frases-feitas usadas com o objetivo de vencer algum adversário.

* Como se pode preservar a beleza inspiradora dos ideais sociais, e espirituais,  impedindo que ela seja destruída pelos desastres éticos que têm provocado, quando se transformam em burocracias políticas ou religiosas, e mesmo esotéricas?

* De que modo se pode libertar o idealismo humano do fanatismo, da hipocrisia, dos derramamentos de sangue, das guerras, das violências e da opressão, que são com frequência promovidos em nome das metas mais generosas e altruístas, se não divinas e transcendentais?

Por exemplo:

* Além de sangrenta, a revolução russa gerou o longo pesadelo stalinista, cuja “polícia política do pensamento” matou milhões de pessoas e iludiu outras tantas ao redor do mundo. O socialismo chinês está longe de ser um modelo de perfeição. As limitações das democracias capitalistas são inegáveis, para dizer o mínimo.  

* A intolerância religiosa, a corrupção do clero – não só católico, e não só cristão – e as guerras feitas em nome de Deus são fatos históricos que dispensam comentários.

As questões colocadas acima podem ser incômodas para todos, mas são inevitáveis para quem deseja lidar com os fatos, e não com fantasias; e para quem pretende abandonar fraudes e construir um futuro saudável.

De nada vale substituir o pensamento próprio por frases feitas e palavras-de-ordem.

É um erro confundir “propaganda” com “conscientização”. A propaganda pode ser comprada para influenciar cegamente uma comunidade nesta ou naquela direção. Mas ter consciência implica pensar por si mesmo, com autonomia individual.

José de Alencar era contrário à política dos slogans. Ele sabia que um país não pode ser mudado para melhor apenas com campanhas de propaganda e uma dúzia de frases feitas, repetidas por multidões ingênuas, a quem se ensina que não é preciso pensar.

A peça “O Jesuíta” – ainda hoje amplamente esquecida – mostra que ter um ideal elevado é importante, mas não é suficiente. Tanto a mudança social externa como o progresso de uma associação de buscadores da sabedoria divina dependem da mudança interna da alma de cada um. O método jesuítico – que não é apenas dos jesuítas – leva ao fracasso.

Não pode haver progresso coletivo – ou espiritual – na ausência de um progresso nas relações familiares e íntimas, ou de um progresso sustentável na relação de cada indivíduo com sua própria alma. As três coisas são inseparáveis: o social, o espiritual e o emocional caminham juntos tanto no erro como no acerto, e vale a pena tomar as medidas necessárias para acertar.

“O Jesuíta” discute de forma concisa o fator sublime na relação do homem com a mulher; e mostra que, ao sublimar em parte o aspecto material do afeto, o homem abre espaço para o amor da alma espiritual.

A obra tem forte valor psicanalítico. Descreve o conflito entre o pai e o filho envolvendo a mulher amada; e destaca o amor espiritual do pai pela sua filha, quando a filha é imagem viva, mas ideal, da mulher amada que já não vive.

No mundo do pensamento brasileiro, José de Alencar ergue-se muito acima da superficialidade de um Machado de Assis. Alencar abre espaço para a percepção da jornada épica da alma. Em suas obras o homem e a mulher são heróis. Ser um humano é transitar respeitosamente entre a vida, a morte e o renascimento, enquanto se avança sempre – enfrentando perigos e cometendo erros – na busca de uma vida melhor e mais sábia.                                             

Em qualquer país ou tempo em que viva quem lê Alencar, o escritor cearense constrói uma atmosfera favorável ao fortalecimento do indivíduo como um ser que escuta a sua própria alma espiritual, e que também a segue, trilhando o caminho do aperfeiçoamento moral, que leva à sabedoria.  

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Clique para ver o livro “O Jesuíta”, de José de Alencar,  nos websites associados.

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O texto acima foi publicado nos websites associados no dia 17 de fevereiro de 2021.  

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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